quarta-feira, 15 de abril de 2009

Fibromialgia 5: Manifestações Associadas


Manifestações não relacionadas ao sistema locomotor são observadas na fibromialgia, algumas presentes em mais de 50% dos casos como cefaléia (sob a forma de enxaqueca ou cefaléia tensional ) e síndrome do cólon irritável (Goldenberg, 1987 ).

O fenômeno de Raynaud ocorre entre 20 e 35% dos casos ( Dinerman, Goldenberg, Felson, 1986 ). Tanto a síndrome do cólon irritável, como o fenômeno de Raynaud, estão relacionados a distúrbios da motilidade da musculatura lisa, o que pode ser decorrente do aumento da afinidade dos receptores alfa 2 adrenérgicos ( BENNETT, et al., 1991 ) e não a uma descarga excessiva do sistema adrenérgico.

Nas plaquetas encontra-se também um aumento de densidade de receptores alfa 2 adrenérgicos, o que leva a uma resposta exacerbada a níveis normais de liberação de catecolaminas ( YUNUS et al., 1992 b, BENNETT, 1993 ).

A depressão está presente em 25% dos casos de fibromialgia e 50% dos pacientes relatam antecedente depressivo ( Goldenberg, 1989; HUDSON & POPE, 1989 ).

Anormalidades do tecido colágeno podem ocorrer concomitantemente à fibromialgia, como o prolapso da válvula mitral ( PELLEGRINO, WAYLONIS, SOMMER, 1989; WAYLONIS & HECK, 1992 ) e a síndrome da hipermobilidade ( GOLDMAN, 1991; GEDALIA et al, 1993 ), tendo sido descrita uma redução dos níveis do peptídeo do pró-colágeno tipo 3 aminoterminal, nestes pacientes ( JACOBSEN et al., 1990 ).

Pacientes submetidos às dores crônicas da artrite reumatóide ( MAHOWALD et al, 1983 ) e da osteoartrose ( Moldofsky, lue, saskin, 1987 ) desenvolvem com maior freqüência, manifestações fibromiálgicas, 12% e 7%, respectivamente ( WOLFE & CATHEY, 1983 ).

Em 1994, YUNUS sugeriu o termo síndrome disfuncional para classificar uma família de entidades, como fibromialgia, síndrome da fadiga crônica, síndromes miofasciais, síndrome do cólon irritável, enxaqueca tensional, disfunção têmporo-mandibular, síndrome das pernas inquietas e movimentos periódicos de pernas. Estas entidades compartilham de disfunções neuroendócrino-imunológicas, que através de neuropeptídeos / neurotransmissores ( serotonina, noradrenalina, beta-endorfina, dopamina, histamina, GABA, colecistoquinina e substância P ), bem como por meio de hormônios do eixo hipotálamo hipofisário, atuam nos mecanismos biofisiológicos de dor, sono e comportamento.

1. SÍNDROME DA FADIGA CRÔNICA
A síndrome da fadiga crônica foi descrita, em 1988, por Holmes et al. Estudos demográficos, imunológicos e psiquiátricos, bem como investigações sobre fadiga muscular, revelam algumas semelhanças entre a fibromialgia e a síndrome da fadiga crônica. Ambas acometem, preferencialmente, mulheres de meia idade, previamente saudáveis. Considerando-se os pacientes acometidos com a síndrome da fadiga crônica, 70% preenchem os critérios para fibromialgia, inclusive quanto à presença dos pontos dolorosos, na vigência de queixas miálgicas ( Goldenberg et al., 1990 ).

Por outro lado, 42% dos fibromiálgicos preenchem os critérios para a síndrome da fadiga crônica ( Holmes et al., 1988 ), mais de 90% apresentam queixas de fadiga e distúrbios do sono e 52% dos pacientes comparam suas queixas a um quadro gripal prolongado ( Buchwald et al., 1987 ).

As alterações imunológicas da síndrome da fadiga crônica são variáveis e sem especificidade. Foram descritas a elevação de títulos de anticorpos contra diversos antígenos virais, em especial os anticorpos antivírus de Ebstein-Barr, redução do número e função das células citotóxicas, redução dos níveis de imuneglobulinas, redução da resposta imunológica do tipo hipersensibilidade tardia, alteração do nível de citocinas e da distribuição das subpopulações de células T ( GOLDENBERG, 1988; Kamaroff & Buchwald, 1991 ).

Estes dados ainda são controversos, não tendo sido encontrados por outros autores como Buchwald et al. (1987 ), que em estudo controlado comparativo de pacientes com síndrome da fadiga crônica e fibromialgia, não observaram diferenças nos títulos de anticorpos antivírus de Ebstein-Barr entre os grupos analisados.

2. SÍNDROMES MIOFASCIAIS
Existe uma controvérsia se as síndromes miofasciais poderiam representar uma manifestação localizada da fibromialgia ( BENGTSSON et al., 1986; Travell & Simons, 1983; SIMONS, 1988; WOLFE et al., 1992 ), assim como se existe correspondência entre os pontos de gatilho e os pontos dolorosos da fibromialgia.

Os pontos de gatilho diferem dos pontos dolorosos da fibromialgia, uma vez que apresentam localização mais profunda na massa muscular, resultando em decréscimo da distensibilidade muscular. A dor é provocada pela contração destes músculos, sendo característica a observação de fasciculação à rápida percussão de uma faixa muscular retesada ( GOLDENBERG, 1991 ).

Os pontos de gatilho podem estar latentes, mas quando pressionados, respondem com intensa dor local e também dor referida ou irradiada.

Por outro lado, os pontos dolorosos observados na fibromialgia são positivos à pressão com intensidade inferior a 4 kgf / cm2, apresentando gradiente de dor com as áreas vizinhas, bem como em relação aos pontos controle, que supostamente são pouco dolorosos. De acordo com WOLFE et al. ( 1992 ) que examinou 24 mulheres, 8 com fibromialgia, 8 com dores miofasciais e 8 controles normais, existiria uma certa semelhança entre ambas as síndromes dolorosas, uma vez que as pacientes com dores miofasciais apresentavam positividade em pelo menos metade do número de pontos padronizados da fibromialgia, sendo que os pontos de gatilho estavam presentes em apenas 20% dos indivíduos pesquisados, tanto no grupo com fibromialgia como no grupo com dores miofasciais.

Até o momento poucos são os estudos prospectivos quanto às manifestações sistêmicas das síndromes miofasciais e sua associação com fadiga ou distúrbios do sono.