segunda-feira, 22 de junho de 2009

Mulheres e salto alto: as dores da beleza

Na visão masculina, as mulheres têm uma estranha atração – e grande resignação – pelas dores decorrentes do ritual de ficar bela. Para citar alguns exemplos clássicos, a depilação, cirurgias plásticas estéticas e o salto alto. Ao contrário do que se poderia imaginar, a associação que as mulheres fazem entre beleza, em especial a dos pés, e sofrimento, não é um fenômeno moderno. Na China antiga, só para citar um exemplo, as mulheres amarravam os pés com tecidos muito apertados para que não crescessem. Nessa cultura, pés pequenos eram sinônimo de beleza e delicadeza feminina.

Símbolo da elegância feminina, a invenção do salto alto está ligada a homens. Alguns apontam Leornardo Da Vinci como o inventor, mas a teoria mais aceita credita ao rei Luís XIV – que governou a França em um dos períodos de maior prosperidade, entre 1643 e 1715 – o título de grande responsável pelo uso dos sapatos de salto alto, desenvolvidos pelos artesãos palacianos. O fato é que mulheres e salto alto são indissociáveise elas estão dispostas a pagar um alto preço pelo uso contínuo, um elevado custo monetário e à saúde.
Ao longo do tempo, os saltos muito altos mudam a conformação dos pés, porque alteram a maneira como as mulheres pisam. Ao se equilibrar, a concentração do peso fica restrita aos dedos. Há, ainda, dificuldade na flexão da planta do pé – o que prejudica a circulação e potencializa a tendência a varizes. Além disso, o salto altera a musculatura da perna, tornando os músculos mais curtos na parte traseira e mais longos na frente. Muita gente já deve ter ouvido queixas de mulheres que afirmam que usam sempre salto alto e não sentem desconforto, mas quando trocam o calçado por modelos sem salto ou tênis, sentem dores na panturrilha (também chamada de batata da perna) e nos pés – sinais clássicos do encurtamento do tendão de Aquiles. Dores no joelho, no arco anterior dos pés, joanetes, calos, tendinites, unhas encravadas e danos à coluna, como lordose, são outros problemas ortopédicos causados pelo salto alto.
Uma pesquisa conduzida na Unicamp há alguns anos apontou uma exceção à regra ¬– o salto alto beneficia a circulação. O estudo, que avaliou mulheres que se equilibravam em saltos de sete e 10 centímetros, comprovou que o uso do salto alto diminui a pressão nas veias. Uma pesquisa divulgada no início deste ano – realizada durante dois anos pela urologista dra. Maria Cerruto, da Universidade de Verona, com 66 mulheres com menos de 50 anos e que não estavam na menopausa – mostrou que o uso de sapatos com salto de até sete centímetros pode ajudar a relaxar e, ao mesmo tempo, fortalecer os músculos da região pélvica, relacionados ao orgasmo. O interessante nesse estudo é que a motivação da pesquisadora foi a preocupação com a disseminação de informações não comprovadas que ligavam o uso de saltos a males como a esquizofrenia. Diante disso, a médica resolveu procurar algo de positivo no uso do acessório. Por favorecer a circulação sangüínea no local, acaba por impedir que (as pernas??) fiquem inchadas. Em contrapartida, um estudo da Sociedade Americana de Ortopedia aponta o salto alto como o vilão responsável pelo gasto de cerca de US$ 3 bilhões anuais com cirurgias nos pés.
O que é unanimidade nesse debate é que dificilmente as mulheres vão abrir mão desse acessório que é símbolo de feminilidade – e não importa o quanto elas saibam a respeito dos efeitos nocivos dos saltos altos para a saúde. Diante dessa constatação, me resignei e reuni cinco dicas básicas para diminuir esses riscos e minimizar o impacto negativo. É uma forma simples de render minhas homenagens no Dia Internacional das Mulheres.
1. Alternar a altura do salto
Se em um dia você usou um salto muito alto, no outro prefira modelos de até quatro centímetros de altura. A prática faz com que a musculatura fique em um estágio intermediário. Pode parecer uma dica de moda, mas o fato é que o mesmo modelo (ou salto) não deve ser usado durante muitos dias para preservar a musculatura dos pés.
2. Modelos alternativos
Compre modelos com o bico e salto quadrado, que oferecem mais estabilidade e conforto. As plataformas – mais indicadas pelos ortopedistas – também são recomendadas porque distribuem melhor o peso por toda a extensão da sola.
3. Sapatos baixos (tênis) para dirigir e andar a pé
Crie um novo hábito. Mantenha no carro um modelo confortável e sem salto – tênis são bons exemplos – para dirigir. As mulheres que utilizam o transporte público, podem adotar o mesmo procedimento. Quando chegar ao trabalho troque pelo modelo de salto alto.
4. Massagear os pés
A massagem nos pés, ao final do dia, ajuda a restabelecer a circulação e funciona como uma prevenção a cãibras e dores musculares. Após a massagem, coloque as pernas para cima por alguns minutos.
5. Alongar a panturrillha
Um dos efeitos de saltos muito altos é o processo de encurtamento da panturrilha. Para prevenir esse impacto negativo, transforme o alongamento da panturrilha em um hábito diário. Ao chegar em casa, no final do dia, utilize um degrau para realizar um exercício simples e que ajuda a manter uma boa circulação do sangue no local: coloque metade do pé sobre o degrau e force a outra metade para baixo. Depois, faça movimentos circulares com os pés para o lado esquerdo e direito. Repita a operação nos dois pés, por 10 minutos.
(*) Dr. Fabio Ravaglia
Médico ortopedista graduado pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), com residência médica no Hospital do Servidor Público Estadual e especialização em coluna vertebral Instituto Arnaldo Vieira de Carvalho (Santa Casa de Misericórdia de São Paulo), dr. Fabio Ravaglia foi o primeiro brasileiro aceito pelo programa do Royal College of Surgeons of England, onde se especializou em ortopedia reumatológica (próteses e revisão de próteses articulares, artroscopia de várias articulações, tratamento de dor na coluna e traumatologia). Durante quatro anos atuou como cirurgião ortopédico em hospitais ligados à Universidade de Bristol, na Inglaterra, país reconhecido pelo pioneirismo no desenvolvimento de próteses e de técnicas de ortopedia reumatológica. Na Alemanha, dr. Ravaglia fez especialização nas mais avançadas técnicas para cirurgias de coluna minimamente invasivas, realizadas com um aparelho do tamanho de uma caneta e com anestesia local. A técnica é utilizada para cirurgias de hérnia de disco.
Em 1994, o ortopedista voltou ao Brasil e passou a atuar com um avançado tratamento cirúrgico para problemas das articulações — a artroscopia, técnica cirúrgica que minimiza as desvantagens da cirurgia e reduz as dores provocadas pela artrose, artrite, traumatologia e hérnia de disco. Presidente do Instituto Ortopedia & Saúde, organização não-governamental que tem a missão de difundir informações sobre saúde e prevenção, o dr. Ravaglia é também membro do corpo clínico externo dos hospitais Albert Einstein, Oswaldo Cruz e Santa Catarina; diretor-presidente da Arthros Clínica Ortopédica e membro titular da Academia de Medicina de São Paulo (cadeira 118, patrono Ernesto de Souza Campos).
Instituto Ortopedia e Saúde


Outra opnião semelhante: Marco da elegância e charme feminino, o salto alto também pode ser um vilão para a saúde da mulher. O uso contínuo desse tipo de sapato acarreta inúmeros problemas na coluna, joelhos e pés. O que ocorre na maioria dos casos é o encurtamento do tendão de Aquiles – tecido que conecta o osso do calcanhar e o músculo da panturrilha.Com o salto alto os dedos são forçados, pois o peso do corpo fica concentrado neles tirando a total participação do calcanhar, o que gera mais desconforto e problemas, principalmente dores na região da frente do pé.

Segundo o Dr. Rene Abdalla, ortopedista do HCor – Hospital do Coração, o número de mulheres com lesões de joelho cresceu nos últimos três anos. “O uso de sapato inadequado, especialmente o de salto alto e bico fino, pode desencadear uma série de danos de ordem funcional e estrutural em curto e médio prazo”, explica.

O ortopedista ainda faz um alerta. “A tendinite de aquiles ou de calcâneo intensifica a presença de dor na parte de trás da perna, praticamente imobilizando a paciente por um período que pode levar de alguns minutos até dias. A dor indica inflamação desse que é o tendão mais potente do corpo humano”, acrescenta.

O pé funciona como uma alavanca impulsionada pelos dedos, que precisam de espaço para se movimentar e garantir a troca de passos. Mas, quando estão apertados dentro dos sapatos, perdem a força de arranque e favorecem a pressão inadequada e a formação de calosidades.

Apesar de todas as críticas aos sapatos de salto alto, como a gente bem sabe, é impossível deixar de usá-lo. Entretanto, para que o uso não seja totalmente proibido, tem de haver uma certa coerência. Dr. Abdalla, que realiza mais de 600 cirurgias de joelho por ano, recomenda algumas modificações, a fim dos problemas diminuírem e não contra-indicar seu uso.

Problemas mais comuns
- Encurtamento do tendão de aquiles;
- Calos nos dedos;
- Tendinites;
- Má circulação – o que ocasiona varizes;
- Dor na região da frente do pé.

Sugestões
- Alternar a altura do salto;
- Preferir os saltos plataformas;
- Após o uso do salto, massagear os pés;
- Alongar a panturrilha;
- Para longas distâncias prefira os saltos baixos ou o uso de tênis.


Fonte: AQUI